Luto Infantil

O luto infantil ocasionado pela separação por morte configura-se em um potencial estressor para a criança, podendo colocar em risco a sua segurança e sobrevivência emocional, somando-se a isso, o fato de encontrar-se num grupo familiar também fragilizado pelo evento.
Dentre os tipos de perdas por morte que podem ocorrer, encontra-se a “morte repentina”, ou seja, aquela que ocorre de forma súbita e inesperada. Dentre elas podemos citar: acidentes diversos, homicídios, suicídios, latrocínio, infarto fulminante, AVC, desastres naturais ou humanamente induzidos, dentre outros. Entende-se que a morte repentina do pai ou da mãe diferencia-se em seu impacto sobre a vida e a estrutura emocional da criança, comparado às mortes que possam ser esperadas ou até mesmo compreendidas como resultado do ciclo vital, tais como morte de avós ou pais já idosos, quando o filho encontra-se na idade adulta. Isto porque estas perdas abruptas, ocorridas de forma acidental ou intencional, quase sempre têm um caráter traumático para os familiares sobreviventes e mais ainda para as crianças.
TRAUMA:
O trauma provém de um acontecimento na vida do indivíduo, que se define pela sua intensidade e pela incapacidade do sujeito de responder de forma adequada, provocando transtornos e efeitos patogênicos na organização psíquica do indivíduo. As perdas repentinas, violentas e prematuras podem ser consideradas dentre as mais difíceis de serem elaboradas. Por isso, a maior crise com a qual uma criança pode se deparar é a morte repentina de um ou de ambos os pais, a qual afeta o sentimento de onipotência infantil, ao mostrar para ela que seus pais não são seres superpoderosos, como imaginava. Da mesma forma, pode surgir culpa, através de impulsos agressivos, que a criança acredita terem se tornado realidade, através da morte.
A morte repentina de um genitor gera, ainda, uma série de mudanças que vão além do desaparecimento da pessoa. Neste contexto, a criança perde também os pais da forma como eram anteriormente, já que o sobrevivente também se modifica em seus aspectos emocionais, comportamentais e nos papéis que necessitam ser readaptados. Como consequência, ela é submetida a uma tarefa ainda mais complexa que a do adulto, pois a perda a priva também de uma base segura e de identificação, obrigando-a abrir mão do mundo que ela conhecia, tornando mais difícil lidar com toda a gama de sentimentos que a invadem com o desmoronamento da família.
FASES DO LUTO:
O luto pode ser descrito em quatro fases, de acordo com o psicólogo John Bowlby, as quais comumente seguem um padrão básico, ainda que se diferenciem em relação à intensidade e duração para cada pessoa:
PRIMEIRA FASE: torpor ou aturdimento – geralmente tem a duração de algumas horas ou semanas, podendo vir acompanhada de manifestações de desespero ou raiva.
SEGUNDA FASE: saudade e busca da figura perdida – pode durar meses ou anos, e caracteriza-se pelo impulso de buscar e recuperar o ente querido, sendo que a raiva pode mostrar-se presente, quando o indivíduo percebe realmente o fato a perda.
TERCEIRA FASE: desorganização e desespero – é frequente o choro, a raiva, acusações envolvendo pessoas próximas e uma profunda tristeza, em virtude da constatação do caráter definitivo da perda. Nesta fase, podem surgir sentimentos mais depressivos, com sensação de que nada mais tem valor.
QUARTA FASE: organização – ocorre a aceitação da perda e a constatação de que uma nova vida precisa ser iniciada.
Contudo, a saudade, a necessidade do outro e a tristeza podem retornar em qualquer fase, já que o processo de luto nunca está totalmente concluído.
Porém, em situações de perda repentina, segundo John Bowlby, a fase de protesto e busca da figura perdida (Fase 2) tende a ser vivida com mais intensidade, sendo que o indivíduo enlutado se empenha, na realidade ou em pensamento, em recuperar a pessoa perdida, recriminando-a pelo seu desaparecimento. Nesta fase, surgem sentimentos ambivalentes, incluindo raiva, esperança e desespero. A raiva em relação ao falecido, de acordo com o autor, é parte integrante da reação de pesar, podendo, em contrapartida, mobilizar culpa, por ser percebida como um sentimento indigno e degradante. No entanto, para que haja a elaboração da perda, é necessário que o indivíduo possa expressar e lidar com os mais diferentes sentimentos suscitados pela morte. Neste sentido, a incapacidade da criança para expressar abertamente esses impulsos pode levar ao desenvolvimento de um luto patológico, com dificuldade de elaboração desta perda.
CONTAR OU NÃO CONTAR PARA A CRIANÇA?
Alguns autores acreditam que sonegar informações às crianças tem por base o senso comum, segundo o qual elas não teriam capacidade de sentir e compreender a perda e por isso, expô-las a tal informação poderia traumatizá-las. Arminda Aberastury e John Bowlby consideram essa dificuldade em lidar com a morte e com o sofrimento infantil como parte do universo dos adultos. Portanto, ao contrário do que se costuma pensar, a criança assimila a perda e se mobiliza com esta realidade, de modo que conversar com a criança, falando a verdade, é importante para que possa realizar o processo de luto de uma forma saudável.
COMO LIDAR, DE ACORDO COM CADA FASE DA INFÂNCIA:
DE 0 A 5 ANOS: Estudos mostram que crianças com menos de cinco anos veem a morte como algo reversível, muito parecido com o sono e a separação, não tendo noção de causa e efeito. Nestes casos, seria importante deixar claro para a criança que a pessoa morreu, dando exemplos concretos e palpáveis, de um fato real que elas tenham vivenciado (morte de um animal, por exemplo). Segundo o autor, enganar a criança pode gerar raiva e frustração em relação ao adulto que lhe mentiu, abalando a relação de confiança.
DE 5 A 7 ANOS: Entre os cinco e os sete anos, além de um exemplo concreto, a criança já pode receber explicações mais minuciosas sobre o fato, já que sua capacidade de julgar causa e efeito está desenvolvida.
8 ANOS: A partir dos oito anos, a criança, de modo geral, já vê a morte como irreversível, mas não como natural, podendo entendê-la como uma punição. Neste caso, cabe ao adulto corrigir as distorções da criança, de modo a amenizar a culpa e o desenvolvimento de sintomas psicossomáticos.
9 ANOS: Aos nove anos, a morte passa a ser entendida como universal e não necessariamente induzida por alguém, de forma que a criança já se mostra capaz de participar das conversas como os adultos.
Assim, independentemente da idade da criança, é importante informá-la sobre o evento, adaptando o linguajar e a complexidade da explicação ao seu nível de compreensão.
Concluindo, é importante destacar que a perda de genitores por morte repentina na infância pode ter inúmeras consequências a curto, médio e longo prazo. Por isso, a ação profilática, tal como o diálogo aberto da família com a criança, a orientação de profissionais da psicologia em relação a possíveis formas de manejo e, em muitos casos, a psicoterapia são necessários, a fim de minimizar os danos ocasionados por tal evento traumático.
O atendimento psicoterapêutico pode auxiliar a criança e sua família no processo de elaboração da perda, ainda mais em situações em que os adultos cuidadores também se encontram enlutados, apresentando dificuldade de lidar com a situação e com a própria expressão de afetos dolorosos por parte da criança. A expressão das emoções por meio do diálogo ou do brinquedo, em um espaço seguro e acolhedor, como o setting psicoterápico, por mais dolorosa que seja, pode auxiliar a todos os envolvidos a atravessar este momento de vida desorganizador, de forma mais adaptativa.
Fonte: ANTON, M. C; FAVERO, E. Morte repentina de genitores e luto infantil: uma revisão da literatura em periódicos científicos brasileiros. Interação em Psicologia (Qualis/CAPES: A2), [S.l.], v. 15, n. 1, out. 2011. ISSN 1981-8076. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/psicologia/article/view/16992>. Acesso em: 13 Mai. 2015. doi:10.5380/psi.v15i1.16992.